SOBRE AS ORIGENS DA PSICOLOGIA EXPERIMENTAL NO SÉCULO XIX: UMA INTRODUÇÃO AOS PRINCIPAIS AUTORES E PROBLEMAS DO PONTO DE VISTA DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA
Origem e desenvolvimento da psicologia experimental no século XIX, destacando como as críticas de Kant à cientificidade da psicologia prepararam o terreno para sua renovação metodológica.
Preparado para PUC-SP.

Monografia de conclusão de curso — Filosofia, PUC-SP, 2019
Marco Antônio Claro Santos | Orientador: Prof. Dr. Mario Ariel González Porta
Introdução: o problema de fazer ciência da alma

No século XIX, a psicologia não existia como disciplina autônoma. Ela era um território contestado, situado entre a fisiologia, a filosofia e a física, e o debate sobre seu estatuto científico mobilizou alguns dos maiores nomes do pensamento moderno ocidental. Este texto reconstrói, de forma esquemática e rigorosa, o percurso filosófico que levou da epistemologia kantiana ao projeto de psicologia empírica de Franz Brentano — passando pelo Idealismo Alemão, pelos primeiros neo-kantianos e pela psicofísica de Fechner.
O argumento central é que as controvérsias metodológicas do século XIX em torno da psicologia têm sua gênese em questões epistemológicas colocadas por Immanuel Kant, e que a solução proposta por Brentano em Psicologia do Ponto de Vista Empírico (1874) só pode ser adequadamente compreendida quando inserida nesse contexto histórico e conceitual específico.
Convencionalmente, toma-se a fundação do laboratório de psicologia de Wilhelm Wundt em Leipzig, em 1879, como marco institucional do nascimento da psicologia experimental, e a publicação dos Elemente der Psychophysik de Gustav Fechner, em 1860, como marco conceitual de sua metodologia. A presente reconstrução, porém, não é uma história interna da psicologia, mas uma história filosófica de suas condições de possibilidade: em vez de seguir apenas o desenvolvimento dos laboratórios, concentra-se no problema teórico que torna a própria ideia de uma ciência da alma pensável — problema formulado por Kant e radicalmente reconfigurado por Brentano.
O texto está organizado em quatro movimentos:
Kant — Revolução Copernicana, método analítico vs. sintético e Dedução Transcendental
Recepção no século XIX — Idealismo Alemão e primeiros neo-kantianos
O impasse da psicologia — restrições kantianas e a alternativa psicofísica de Fechner
Brentano — intencionalidade, percepção interna e a psicologia como ciência autônoma
Este recorte implica deixar de lado figuras importantes da história geral da psicologia, como Ebbinghaus, Titchener, William James ou a posterior virada behaviorista. O foco aqui é mais estreito e preciso: reconstruir a linha Kant–Fechner–Brentano no contexto alemão do século XIX, com ênfase no problema da cientificidade da psicologia e na forma como diferentes autores procuraram, cada um a seu modo, contornar o “teto conceitual” imposto pelas objeções kantianas.
I. Os pressupostos kantianos

1.1 A Revolução Copernicana: conhecer é produzir, não refletir

Em 1781, Kant publicou a Crítica da Razão Pura — a obra que redefiniu as condições de possibilidade de todo conhecimento científico moderno. Seu ponto de partida é aparentemente paradoxal: a experiência é o nosso primeiro ensinamento, mas sozinha é incapaz de nos fornecer conhecimento universal e necessário.
"A experiência realmente nos diz que algo é, mas não que teria de ser assim, e não de outro modo, de maneira necessária. Por isso mesmo, ela não nos dá também nenhuma Universalidade verdadeira."
— KANT, Crítica da Razão Pura, A 1 (trad. Mattos, 4. ed., Vozes, 2016, p. 65)
O desafio que Kant se coloca é preciso: como fazer afirmações necessárias, universais e não redundantes sobre um mundo que nos aparece de forma inesgotável e contingente? Como aplicar a lógica pura — que trata de relações atemporais entre conceitos — aos dados espaço-temporais fornecidos pela nossa sensibilidade? Ou, nos termos que ficaram célebres: como são possíveis juízos sintéticos a priori? (B 19)
A resposta — a chamada Revolução Copernicana — inverte a direção clássica do conhecimento: em vez de supor que nosso conhecimento se regula pelos objetos, Kant afirma que os objetos se regulam pelas condições de nosso conhecimento. Conhecer não é uma recepção passiva do mundo, mas uma produção ativa de fenômenos segundo formas que nós mesmos fornecemos à experiência.
A filosofia que daí resulta é dita crítica — em oposição a dogmática — porque não afirma nada sobre coisas em si mesmas (Deus, alma imortal, cosmos como totalidade), mas reflete sobre as condições que tornam possível o conhecimento do mundo fenomênico.
1.2 Método analítico e método sintético: o debate de 1763
Antes da Crítica, em 1763, Kant participou de um concurso na Academia Real de Ciências de Berlin com o Ensaio para Introduzir a Noção de Grandezas Negativas em Filosofia. O tema proposto era direto:
"Se as verdades metafísicas em geral, e os primeiros princípios da Teologia Natural e da moralidade em particular, admitem provas distintas no mesmo grau das provas geométricas."
— ALLISON, Kant's Transcendental Deduction, Oxford University Press, 2015, p. 11
Já nesse texto estão os germes do projeto crítico. Kant distingue dois métodos:
Método | Descrição | Ciência típica |
|---|---|---|
Analítico | Parte da observação de fenômenos e constrói progressivamente princípios gerais | Mecânica newtoniana, Metafísica |
Sintético | Parte de definições e axiomas e deduz consequências | Geometria |
A tese central é que mesmo a geometria não é puramente sintética: ela depende de construções no espaço e no tempo, ou seja, de elementos sensíveis. E, como consequência, a metafísica, a teologia e a moral não podem atingir o mesmo grau de certeza que a física ou a geometria por meio de definições conceituais puras.
Duas décadas depois, essa intuição se tornará a conclusão da Crítica: nunca poderemos conhecer Deus, a Alma Imortal ou o Cosmos em si mesmos, pois esses conceitos transcendem absolutamente o espaço e o tempo — os únicos quadros nos quais o conhecimento verdadeiro é possível.
1.3 A Dedução Transcendental: sensibilidade, entendimento e imaginação
Para explicar como juízos sintéticos a priori são possíveis, Kant desdobra o problema em três operações fundamentais, cada uma ligada a uma faculdade distinta.
I. Imaginação transcendental
Retém e reconstrói o múltiplo sensível mesmo quando o estímulo já cessou.
Atua por meio de duas sínteses:
Síntese figurativa (B 151): mantém presentes, no fluxo do tempo, impressões que já passaram.
Síntese reprodutiva (B 152): abstrai traços comuns entre fenômenos semelhantes, permitindo reconhecer “o mesmo” em aparições distintas.
É essa operação que torna possível subsumir a multiplicidade sensorial — pedras, cavalos, rosas — sob conceitos gerais, que depois serão tratados pela lógica.
II. Imaginação produtiva
Torna possível “construir” conceitos matemáticos no espaço e no tempo, de acordo com regras.
O exemplo clássico é a geometria: a proposição “a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a 180 graus” não pode ser obtida apenas pela análise do conceito de “triângulo”.
É preciso construir mentalmente o triângulo, traçar linhas auxiliares, percorrer uma sequência ordenada de passos — isto é, temporalizar o raciocínio — até chegar à demonstração.
A imaginação produtiva mostra que mesmo a matemática depende de uma atividade construtiva ligada às formas da sensibilidade (espaço e tempo), e não de pura análise conceitual.
III. Apercepção transcendental
Designa a consciência a priori expressa pelo “eu penso” que deve poder acompanhar todas as nossas representações (A 107; B 132).
Ela garante que as experiências que ocorrem em momentos e lugares diferentes sejam referidas a um mesmo sujeito, constituindo uma única experiência possível.
Não é um “eu” empírico, com traços psicológicos variáveis, mas a condição formal de unidade de toda consciência: sem essa unidade sintética, não haveria objeto de experiência, apenas um fluxo caótico de impressões.
É essa unidade originariamente sintética da apercepção que torna possível falar em regras objetivas: só porque o múltiplo é reunido numa mesma consciência é que podemos aplicar a ele categorias como causalidade, substância ou comunidade.
Kant resume a função dessa unidade nos seguintes termos:
“essa unidade originariamente sintética da apercepção é o que garante que as nossas experiências possam seguir regras objetivas”. (Crítica da Razão Pura, A 111; A 112; B 140).
Esses três elementos — imaginação transcendental, imaginação produtiva e apercepção transcendental — articulam-se com:
as formas puras da sensibilidade (espaço e tempo),
e as categorias do entendimento (formas puras do juízo),
formando o que Kant chama de transcendental: o conjunto de condições de possibilidade de todo conhecimento objetivo.
O resultado global desse procedimento é a Lógica Transcendental, isto é, a explicitação das regras sob as quais toda experiência possível deve se organizar, e que fundamentam, em última análise, a objetividade tanto das leis da mecânica newtoniana quanto dos teoremas da geometria euclidiana.
Tabela-resumo das três operações
Operação | Função principal | Exemplo privilegiado |
|---|---|---|
Imaginação transcendental | Reter e recompor o múltiplo sensível | Reconhecer “o mesmo” objeto em aparições sucessivas |
Imaginação produtiva | Construir objetos matemáticos no espaço/tempo | Demonstração geométrica do triângulo |
Apercepção transcendental | Unificar todas as representações no “eu penso” | Referir experiências dispersas a um mesmo sujeito |
1.4 — Psicologia Racional e os Paralogismos da Razão Pura
A restrição kantiana à psicologia não se limita ao problema da matematização. Antes mesmo de questionar o método empírico, Kant desmonta a possibilidade de uma psicologia racional — aquela que, a partir da simples análise do conceito de "eu penso", pretendia demonstrar que a alma é uma substância simples, imaterial, pessoalmente idêntica ao longo do tempo e imortal. Essa era a pretensão da tradição wolffiana, e Kant a dissolve nos chamados Paralogismos da Razão Pura (A 341 / B 399).
O argumento central é preciso: o "eu penso" que acompanha todas as nossas representações — a apercepção transcendental — é uma condição formal do conhecimento, não um objeto de conhecimento. Ele não possui qualidades substanciais que possamos inferir; é apenas a unidade lógica que torna possível a ordenação dos fenômenos. Concluir daí que a alma é simples, imaterial ou imortal equivale a confundir uma função lógica com uma entidade real — e é exatamente o que os paralogismos denunciam como sofisma estrutural.
Isso significa que a psicologia falha duplamente no tribunal kantiano: como ciência racional, porque seu objeto — a alma — está além do espaço e do tempo e, portanto, fora do alcance das categorias do entendimento; e como ciência empírica, porque seus dados, fornecidos apenas pelo sentido interno (o tempo), não admitem matematização nem reprodutibilidade pública. Ambas as vias estão bloqueadas — e é precisamente esse duplo bloqueio que mobilizará todos os projetos psicológicos do século XIX.
1.5 — Oposição lógica e oposição real: o núcleo do Ensaio de 1763
No Ensaio para Introduzir a Noção de Grandezas Negativas em Filosofia (1763), Kant introduz uma distinção que será decisiva para todo o desenvolvimento posterior de sua crítica ao método sintético puro: a distinção entre oposição lógica e oposição real.
Uma oposição é lógica quando dois predicados se contradizem formalmente — "A é quente" e "A não é quente" —, resultando em nada, isto é, em contradição. Uma oposição é real quando dois predicados, ambos positivos, se anulam mutuamente sem contradição lógica — como quando uma força de 10 N para a direita e uma força de 10 N para a esquerda resultam em repouso. O repouso, aqui, não é ausência de forças, mas equilíbrio entre duas realidades positivas.
A importância dessa distinção é imensa: ela demonstra que o mundo real opera segundo relações que não podem ser deduzidas da pura análise de conceitos. Nenhum exame lógico do conceito de "força" permite prever que duas forças iguais em sentidos opostos produzem repouso — isso só é sabido pela experiência. Em outros termos, a realidade tem uma estrutura que excede a lógica formal, e qualquer método que pretenda derivar conhecimento do mundo a partir de puras definições conceituais estará, sistematicamente, equivocado. É esse insight que abrirá o caminho para a crítica ao método sintético isolado e, décadas depois, para a distinção entre juízos analíticos e juízos sintéticos a priori na Crítica da Razão Pura.
II. A recepção da filosofia kantiana no século XIX
2.1 O Idealismo Alemão: da crítica ao dogma

A Crítica da Razão Pura não recebeu a acolhida que Kant esperava. Em 1782, a chamada Göttingen Review acusou-o de defender uma versão reelaborada do idealismo dogmático de Berkeley — posição segundo a qual só podemos conhecer nossas próprias representações, e não o mundo real.
Esse mal-entendido teve consequências históricas enormes: o Idealismo Alemão surge precisamente para responder ao "subjetivismo" atribuído a Kant, buscando um realismo mais robusto por meio da hipostasiação das condições de possibilidade do conhecimento. Nas palavras de Frederick Beiser, as diferenças entre os idealismos de Reinhold, Fichte, Schelling e Hegel surgem apenas na medida em que "um não foi consequente o bastante para garantir uma fundamentação sólida para um realismo em relação ao outro".
Esse movimento implicou ao menos quatro transformações do modelo kantiano:
Dissolução das dualidades — A separação entre Entendimento e Sensibilidade, Fenômeno e Coisa-em-si, Filosofia Teórica e Prática perde progressivamente sua força. Sujeito e Objeto tornam-se manifestações de momentos de uma única Realidade (o Espírito).
Novo conceito de Natureza — A mecânica newtoniana, determinista e inerte, é substituída por uma Natureza vitalística, teleologicamente determinada e racional, em consonância com os conceitos aristotélicos de substância, finalidade e primeiro motor.
Identificação entre Racional e Real — O que é racional é real, e o que é real é racional. Conhecer a totalidade do Mundo, da História e até de Deus torna-se possível por meios exclusivamente especulativos.
Rejeição das Ideias como meramente regulativas — Para Fichte, Schelling e Hegel, não basta pensar a liberdade como-se ela existisse. As Ideias de Deus, Mundo e Liberdade precisam ser constitutivas do real, sob pena de o idealismo crítico desembocar em ateísmo e niilismo moral.
O resultado mais acabado desse processo está em Hegel. No §214 da Enciclopédia das Ciências Filosóficas, ele define a Ideia como "o sujeito-objeto; a unidade do ideal e do real; do finito e do infinito; da alma e do corpo". E no §237, a Ideia Absoluta como "a forma pura do conceito, que intui seu conteúdo". A filosofia, em Hegel, deixou de ser crítica — limitada à experiência possível — e tornou-se novamente dogmática: a dedução especulativa da totalidade do ser a partir de primeiros princípios.
2.2 Os primeiros neo-kantianos: epistemologia em linguagem psicológica

As modificações idealistas do sistema kantiano provocaram reações imediatas. Entre elas, destaca-se a primeira geração neo-kantiana, representada por Jakob Friedrich Fries, Friedrich Herbart e Friedrich Eduard Beneke — autores que divergem em aspectos importantes, mas compartilham uma orientação comum.
Em termos gerais, seus projetos eram o avesso do idealismo: em vez de hipostasiar as condições de possibilidade do conhecimento em uma realidade supra-empírica, eles buscavam fundamentar a filosofia em uma análise sistemática de nossas faculdades cognitivas — tematizando problemas epistemológicos em linguagem estritamente psicológica pela primeira vez.
Isso não é um detalhe menor. A transposição de questões epistemológicas para o vocabulário da psicologia abre a possibilidade — e o problema — de investigar empiricamente as estruturas do conhecimento. E é precisamente esse movimento que tornará urgente a questão do estatuto científico da própria psicologia como disciplina.
2.3 — Fries, Herbart e Beneke: três psicologismos distintos
Embora tratados em conjunto como "primeiros neo-kantianos", Jakob Friedrich Fries (1773–1843), Friedrich Herbart (1776–1841) e Friedrich Eduard Beneke (1798–1854) desenvolveram projetos consideravelmente distintos — e a diferença entre eles é reveladora das tensões internas ao projeto de fundar a filosofia em bases psicológicas.
Fries propõe uma fenomenologia da consciência (Phänomenologie des Geistes no sentido pré-hegeliano do termo) como fundamento da filosofia: em vez das deduções transcendentais kantianas, seria preciso partir de uma análise introspectiva das faculdades da consciência empírica. Para Fries, o método da filosofia deveria ser o mesmo da psicologia — uma observação sistemática da vida mental —, e as categorias kantianas deveriam ser justificadas psicologicamente, não transcendentalmente. Sua posição é, portanto, explicitamente psicologista: a validade das leis lógicas repousa sobre fatos da consciência.
Herbart vai em direção oposta: recusa o psicologismo de Fries e tenta construir uma mecânica das representações (Mechanik der Vorstellungen) matematicamente rigorosa. Para ele, as representações têm intensidades mensuráveis e se combinam, conflitam e se suprimem mutuamente segundo leis quantificáveis, análogas às leis da física. O projeto herbartiano é, assim, uma psicologia matemática sem experimento — uma tentativa de salvar o ideal de rigor kantiano pela via da formalização algébrica dos estados mentais, prescindindo da fisiologia.
Beneke, por sua vez, é o mais próximo de uma psicologia empírica no sentido moderno: propõe que toda a filosofia deve ser fundada na introspecção sistemática e que os fatos psicológicos têm prioridade epistêmica sobre quaisquer princípios metafísicos. Sua influência foi limitada em vida — suas obras foram censuradas na Prússia —, mas sua insistência na primazia metodológica da psicologia antecipa aspectos do programa que Brentano desenvolverá de forma mais rigorosa três décadas depois.
2.4 — O colapso do idealismo especulativo: Materialismo, Helmholtz e Darwin
O declínio dos grandes sistemas idealistas na segunda metade do século XIX não foi resultado apenas de críticas filosóficas internas. Ele foi acelerado por uma série de descobertas científicas que tornaram o vitalismo orgânico dos idealistas empiricamente insustentável e politicamente comprometido.
Em 1847, Hermann von Helmholtz enuncia o Princípio de Conservação de Energia, demonstrando que a totalidade dos processos naturais — incluindo os processos nervosos e cerebrais — pode ser descrita em termos de transformações físico-químicas quantificáveis, sem qualquer recurso a forças vitais ou princípios teleológicos. O ideal de Natureza orgânica e autodirigida dos idealistas perdia sua última base científica plausível. Em 1859, Darwin publica A Origem das Espécies e dissolve definitivamente a necessidade de um princípio teleológico na explicação da vida biológica: a adaptação é produto de variação aleatória e seleção natural — não de uma Ideia que se realiza na matéria.
Esse duplo golpe provoca o que os historiadores da filosofia alemã chamam de Materialismusstreit — a disputa materialista dos anos 1850, protagonizada por autores como Ludwig Büchner, Carl Vogt e Jacob Moleschott. Para esses pensadores, o pensamento é simplesmente uma função do cérebro, a consciência é um epifenômeno da matéria, e qualquer psicologia séria deve ser uma extensão da fisiologia. É contra esse horizonte reducionista — e não apenas contra Kant — que Fechner, Wundt e Brentano estarão respondendo quando propuserem seus respectivos projetos psicológicos.
2.5 — Trendelenburg e Lotze: entre mecanicismo e teleologia
Dois autores merecem atenção especial como elos entre o colapso do idealismo e o surgimento da psicologia como disciplina: Friedrich Adolf Trendelenburg (1802–1872) e Rudolf Hermann Lotze (1817–1881).

Trendelenburg dirige uma das críticas mais precisas ao método dialético hegeliano: a chamada Lücke (lacuna). Hegel pretendia derivar o movimento real a partir da dialética de conceitos — mas Trendelenburg mostra que o movimento já estava tacitamente pressuposto na própria construção da dialética, tornando o argumento circular. A crítica é devastadora para qualquer sistema que pretenda deduzir a realidade a partir de princípios puramente lógicos, e abre espaço para uma filosofia que retorne aos dados concretos da experiência e do movimento real. Sua influência sobre Brentano é direta e documentada.

Lotze representa uma síntese mais sofisticada: aceita o mecanicismo como modelo descritivo adequado para os processos naturais, mas insiste que o mecanismo, por si só, é insuficiente para dar conta do valor e da unidade da consciência. Em sua obra Medizinische Psychologie (1852) e posteriormente em Mikrokosmus (1856–64), Lotze propõe que a psicologia deve descrever os processos mentais com o rigor das ciências naturais, mas sem confundi-los com os processos fisiológicos que os acompanham. Essa distinção entre correlação e identidade — entre o fato de que estados mentais correspondem a estados cerebrais e o fato de que eles são estados cerebrais — é precisamente o terreno em que Brentano irá operar.
III. O impasse kantiano: pode a psicologia ser uma ciência?

3.1 O "dogma" da matematização
Nos Fundamentos Metafísicos da Ciência da Natureza (1786), Kant enuncia o que pode ser considerado o maior obstáculo à constituição da psicologia como ciência estrita: "há tanto de ciência em uma disciplina quanto há de matemática nela".
A física conquista o estatuto científico porque pode matematizar seus objetos: corpos no espaço tridimensional, submetidos a relações geométricas e leis quantitativas. A psicologia empírica, porém, tem por objeto apenas o que se dá no sentido interno — no tempo — sem referência a um espaço que permita localizar, comparar e medir estados mentais como se fossem grandezas extensivas.
3.2 Introspecção, instabilidade e ausência de publicidade
Além do problema da matematização, Kant aponta dois obstáculos metodológicos decisivos:
Instabilidade do método introspectivo — Toda vez que o sujeito procura observar um estado mental passado, o faz já sob a influência de um novo estado presente (o ato reflexivo), que modifica o objeto observado. O "experimento" altera irremediavelmente seu próprio objeto.
Falta de reprodutibilidade pública — Experimentos realizados no sentido interno não podem ser repetidos por diferentes observadores sobre o mesmo objeto, pois cada consciência é irredutivelmente privada. Falta à psicologia o controle público de resultados que é condição do método experimental.
A conclusão kantiana é clara: a psicologia empírica só pode ser uma "história natural do sentido interno" — uma descrição ordenada de fatos de consciência, não uma ciência experimental capaz de formular leis estritas. Esse "teto conceitual" pesará sobre quase todas as tentativas de fundar a psicologia como disciplina científica ao longo do século XIX.
IV. Fechner: a psicofísica como resposta parcial

4.1 A estratégia: ancorar o psíquico no físico
Theodor Gustav Fechner propõe, nos Elementos de Psicofísica (1860), uma solução engenhosa às restrições kantianas: em vez de tentar matematizar diretamente estados de consciência, ele toma como ponto de partida os estímulos físicos — cujas magnitudes são mensuráveis — e investiga como variações nesses estímulos correlacionam-se a variações na sensação.
O esquema das "diferenças apenas perceptíveis" e a lei logarítmica que daí resulta expressam o esforço de construir uma ponte quantitativa entre o mundo físico e o psíquico, preservando o ideal kantiano de matematização. A psicologia torna-se, nesse modelo, inseparável da fisiologia e da física subjacentes, o que reforça a tendência de entender a mente como função de processos corpóreos mensuráveis.
4.1a — A Lei de Weber-Fechner e o conceito de limiar
O núcleo técnico da psicofísica fechneriana é a formalização matemática da relação entre estímulo físico e magnitude da sensação. Tomando como ponto de partida os experimentos de Ernst Heinrich Weber sobre diferenças apenas perceptíveis (just noticeable differences, JND), Fechner estabelece que a menor diferença detectável entre dois estímulos é sempre uma fração constante da magnitude do estímulo de referência — o que ficou conhecido como Lei de Weber: ΔI/I=kΔI/I=k.
A partir daí, Fechner integra essa relação diferencial e obtém a famosa lei logarítmica que relaciona a intensidade do estímulo II à magnitude da sensação SS:
S=k⋅log (II0)S=k⋅log(I0I)
onde I0I0 é o limiar absoluto — a menor intensidade capaz de produzir qualquer sensação. O que a fórmula expressa, conceptualmente, é que a sensação cresce de forma logarítmica em relação ao estímulo: dobrar o estímulo não dobra a sensação, mas acrescenta a ela uma quantidade constante. Isso significa, em termos práticos, que a diferença entre 1 e 2 velas parece maior do que a diferença entre 100 e 101 velas — porque o que o sistema nervoso registra é a razão, não a diferença absoluta.

A importância filosófica dessa lei é que ela torna possível, pela primeira vez, uma escala de medição de estados mentais — ainda que indireta, mediada pelo estímulo físico. Fechner acredita ter resolvido o impasse kantiano: a psicologia não precisa medir diretamente os estados de consciência para ser uma ciência rigorosa; basta medir os estímulos que os produzem e estabelecer as funções que os relacionam. É esse o modelo que influenciará Mach, William James e Bertrand Russell — cada um à sua maneira — na virada para o século XX.
4.2 Os limites da psicofísica
A despeito do êxito metodológico, a psicofísica não resolve o problema central: o que caracteriza o psíquico enquanto tal não é captado por grandezas intensivas. O que Fechner mede é sempre um correlato físico ou uma projeção quantitativa da experiência — nunca a estrutura do ato psíquico enquanto tal.
É precisamente esse ponto que Brentano vai tomar como ponto de partida. Para ele, a psicofísica comete um equívoco fundamental: confunde o ato de representar com o objeto representado — ou seja, a vivência com o conteúdo que pode eventualmente ser medido (como uma intensidade luminosa ou sonora).
4.3 — Wundt e o laboratório de Leipzig: a institucionalização da psicologia experimental
Se Fechner forneceu o quadro teórico e metodológico da psicofísica, foi Wilhelm Wundt (1832–1920) quem transformou esse programa em uma disciplina institucionalizada. Em 1879, Wundt funda em Leipzig o primeiro laboratório de psicologia experimental do mundo — marco convencional do nascimento da psicologia como ciência independente. O evento não é apenas simbólico: representa a separação administrativa e intelectual da psicologia em relação à filosofia e à fisiologia, com um currículo próprio, uma metodologia padronizada e um veículo de publicação dedicado (Philosophische Studien, fundado em 1881).
O projeto wundtiano é híbrido por construção: combina a introspecção controlada (Selbstbeobachtung) — realizada por observadores treinados em condições laboratoriais rigorosas — com a mensuração dos tempos de reação e dos limiares sensoriais herdada de Fechner. O objeto da psicologia wundtiana é a experiência imediata (unmittelbare Erfahrung), entendida como o correlato subjetivo dos processos fisiológicos. A consciência, para Wundt, não é um domínio autônomo — é sempre a face subjetiva de um processo que tem uma face fisiológica correspondente.
É precisamente esse pressuposto que Brentano recusa. Para ele, Wundt não funda uma psicologia autônoma: funda uma fisiologia com vocabulário psicológico. A psicologia genuína não pode ter como objeto a experiência imediata enquanto correlato do estímulo — deve ter como objeto o ato de experienciar, que é irredutível a qualquer descrição fisiológica. O contraste entre os dois projetos não é apenas metodológico; é ontológico: o que conta como fenômeno psíquico, para Wundt e para Brentano, são coisas fundamentalmente distintas.
V. Franz Brentano: uma psicologia empírica sem psicofísica

5.1 O critério de demarcação: fenômenos físicos e fenômenos psíquicos
Na Psicologia do Ponto de Vista Empírico (1874), Brentano propõe uma distinção radical que serve como critério de demarcação da psicologia enquanto disciplina autônoma:
Fenômenos Físicos | Fenômenos Psíquicos | |
|---|---|---|
Natureza | Objetos de apresentação (cores, sons, movimentos) | Atos de apresentar, julgar, amar, odiar |
Mensurabilidade | Passíveis de quantificação e comparação | Não redutíveis a magnitudes intensivas |
Traço distintivo | Extensão e localização espacial | In-existência intencional |
Método | Experimental-físico | Descrição de atos de consciência |
A in-existência intencional — o conceito central do projeto — é a característica de que em todo fenômeno psíquico algo é visado, referido ou direcionado como objeto, independentemente do estatuto ontológico desse objeto. Nas palavras do próprio Brentano:
"Todo fenômeno mental é caracterizado por aquilo que os Escolásticos da Idade Média chamaram de in-existência intencional (ou mental) de um objeto (...). Na representação há algo representado; no juízo há algo afirmado ou negado; no amor, amado; no ódio, odiado; no apetite, apetecido etc. Esta inexistência intencional é própria exclusivamente dos fenômenos psíquicos."
— BRENTANO, Psychology from an Empirical Standpoint, Routledge, 2009, p. 68
Todo fenômeno psíquico é ou uma representação, ou um ato que se funda em uma representação — o que torna a intencionalidade não um atributo acidental, mas a marca formal de tudo que pertence ao domínio da psicologia.
5.1a — A classificação tripartite: Representações, Juízos e Fenômenos de Amor e Ódio
Uma vez estabelecida a intencionalidade como marca formal do psíquico, Brentano precisa classificar os fenômenos psíquicos de acordo com o modo pelo qual cada ato se relaciona com seu objeto intencional. O resultado é a divisão tripartite que estrutura o Livro II da Psicologia do Ponto de Vista Empírico:
1. Representações (Vorstellungen): são os atos mais elementares — os que simplesmente apresentam um objeto à consciência, sem afirmar nem negar nada sobre ele, sem amá-lo nem odiá-lo. Ver uma cor, ouvir um som, imaginar um unicórnio: em todos esses casos, algo é simplesmente dado à consciência sem que ela tome posição. Toda representação é, para Brentano, fundante: não existe juízo nem ato afetivo que não pressuponha uma representação prévia do objeto sobre o qual incide.
2. Juízos (Urteile): são os atos pelos quais a consciência aceita ou rejeita o objeto representado — afirma sua existência ou a nega. O juízo não é, para Brentano, uma combinação de representações (como em Kant), mas um ato primitivo e irredutível: aceitar que algo existe é tão originário quanto representá-lo. Isso tem consequências importantes: a percepção interna — a consciência imediata que temos dos nossos próprios atos mentais — é, para Brentano, um juízo de evidência imediata, não uma representação.
3. Fenômenos de Amor e Ódio (Gemütsbewegungen): são os atos pelos quais a consciência se volta ao objeto com aprovação ou reprovação, prazer ou desprazer, amor ou ódio. Assim como os juízos se dividem em corretos (evidentes) e incorretos, os atos afetivos se dividem em retos (adequados ao valor real do objeto) e não-retos. Essa estrutura axiológica do terceiro nível será o ponto de partida da ética e da estética de Brentano em obras posteriores.
A hierarquia é rígida: toda vida mental começa na representação, passa eventualmente pelo juízo e pode culminar em uma resposta afetiva. Não é possível amar o que não foi representado nem julgar o que não se conhece. Essa arquitetura determina o programa de investigação da psicologia descritiva brentaniana: descrever com precisão os atos de cada classe, suas relações de fundação mútua e as leis que governam sua ocorrência.
5.1b — Percepção interna vs. observação interna: a resposta ao argumento kantiano
O ponto mais delicado do projeto brentaniano é justamente aquele em que ele parece mais vulnerável à crítica kantiana: se a introspecção é metodologicamente impossível — porque o ato de observar modifica o objeto observado —, como pode a psicologia descritiva de Brentano ser uma ciência empírica?
A resposta está na distinção fundamental entre percepção interna (innere Wahrnehmung) e observação interna (innere Beobachtung). A observação interna — aquela que Kant e, mais tarde, Auguste Comte criticaram — seria uma segunda experiência dirigida sobre a primeira: um ato de atenção que se volta retrospectivamente a um estado mental passado como se este fosse um objeto externo. Essa operação é, com efeito, impossível: ao tentar observar minha raiva, já não estou com raiva, mas com atenção; o objeto fugiu antes mesmo de ser fixado.
A percepção interna, por contraste, não é uma segunda experiência: é a consciência concomitante e imediata que acompanha todo ato psíquico enquanto ele ocorre. Quando vejo uma cor, percebo internamente — de forma não-temática e infalível — que estou vendo. Não há um segundo ato de atenção: a consciência do ato é estruturalmente parte do próprio ato. É nesse sentido que Brentano afirma que toda percepção interna é evidente: não porque seja infalivelmente correta em suas descrições conceituais, mas porque o fato bruto de que algo está ocorrendo está dado de forma imediata e insuperável.
Esse mecanismo resolve o problema kantiano sem apelar à introspecção clássica: a psicologia não precisa voltar o olhar para si mesma em um segundo momento — ela descreve o que já está dado na estrutura do próprio ato consciente. E é precisamente por isso que Brentano pode reivindicar para a psicologia o status de ciência empírica: não porque ela mede ou experimenta no sentido fechneriano, mas porque seus dados — os atos de consciência descritos na percepção interna — são diretamente acessíveis e inegáveis.
5.1c — Brentano contra Comte: o olho que pode ver a si mesmo
Entre os interlocutores explícitos da Psicologia do Ponto de Vista Empírico, Auguste Comte ocupa um lugar especial — não como aliado, mas como o adversário que formulou a versão mais direta do argumento contra a psicologia empírica. Para Comte, fundador do positivismo, a introspecção é estruturalmente impossível por uma razão quase trivial: o órgão de observação e o órgão observado são o mesmo. O olho não pode ver a si mesmo; o pensamento não pode pensar a si mesmo sem simultaneamente deixar de ser o que pensava. Portanto, a psicologia não pode ser uma ciência positiva — deve ser reduzida à fisiologia do sistema nervoso ou à sociologia do comportamento.
Brentano aceita a premissa, mas recusa a conclusão. Comte está certo que a observação interna é impossível — mas erra ao supor que toda forma de acesso ao psíquico seja observação no mesmo sentido. A percepção interna não exige que o pensamento se desdobre em dois — observador e observado —; ela é a consciência imediata e não-temática que o ato tem de si mesmo enquanto ocorre. Quando sinto dor, não preciso observar a dor como se fosse um objeto externo: a dor é simplesmente percebida — presente à consciência de forma direta e inegável, sem mediação e sem distância.
A diferença é crucial para o estatuto da psicologia: se Comte tivesse razão, não haveria nenhuma ciência possível do mental enquanto tal — apenas ciências do comportamento ou da fisiologia. Com a distinção brentaniana, a psicologia recupera um domínio próprio, um método adequado e um critério de evidência irredutível a qualquer disciplina externa. É nesse sentido preciso que Brentano pretende fundar a psicologia não como apêndice da fisiologia, mas como ciência epistemologicamente privilegiada e metodologicamente autônoma — o programa que o orientador desta monografia, Mario Ariel González Porta, identifica como a contribuição mais original e menos reconhecida do pensamento brentaniano.
5.2 Intencionalidade em sentido psicológico, não ontológico
Leituras influentes — em especial a de Roderick Chisholm — sugeriram que a "in-existência intencional" em Brentano implica duas teses: uma psicológica (sobre a estrutura relacional do ato) e outra ontológica (sobre um modo de ser "irreal" dos objetos intencionais no ato psíquico), a segunda das quais teria sido abandonada nos textos de 1889-91, evidenciando uma suposta falta de unidade em sua filosofia.
O contexto da psicologia experimental do século XIX, porém, permite uma leitura mais parcimoniosa e mais coerente: a ênfase de Brentano está em diferenciar, contra Fechner, Wundt, Herbart e Hamilton, o ato de representar do conteúdo representado — e em mostrar que a psicologia lida primordialmente com atos.
Se a intencionalidade é a marca característica de todo fenômeno psíquico, ela precisa ser entendida como um traço relacional do ato, e não como a postulação de entidades "irreais" que habitariam o ato. Caso contrário, o critério de demarcação colapsa: o próprio conteúdo sensível dotado de magnitude mensurável (a intensidade de uma dor ou de uma cor) passaria a ser contado como psíquico em virtude de seu modo de existência "no" ato, anulando precisamente a distinção que Brentano faz entre sentir uma dor (fenômeno psíquico) e a dor enquanto intensidade sensorial (fenômeno físico).
5.3 Percepção interna vs. introspecção: evitando o regresso kantiano
Ao insistir que a psicologia é uma ciência empírica, Brentano não se aproxima da psicofísica pela via da mensuração, mas pela via de uma descrição rigorosa de atos de consciência acessíveis em uma percepção interna — diferente, em princípio, da introspecção que Kant havia criticado.
A percepção interna brentaniana não é uma segunda experiência que observa a primeira a partir de fora. É a consciência concomitante que temos dos atos em que nos relacionamos com algo: ver uma cor e, ao mesmo tempo, estar consciente de que vemos. Esse mecanismo evita o "regresso infinito" da introspecção clássica — onde o observador sempre precisa de um segundo observador para observar o primeiro — e preserva a objetividade da descrição.
Isso tem uma implicação direta para o debate sobre consciência e inconsciência no contexto do século XIX. Para Fechner e Wundt, uma sensação é consciente quando sua intensidade física supera um determinado limiar em comparação com outras sensações simultâneas. Para Brentano, esse uso de "consciência" é inadmissível: ele se aplica a fenômenos físicos (intensidades mensuráveis), não ao que há de genuinamente psíquico nos atos mentais.
5.4 Brentano além da "ponte histórica"
Leituras que reduzem Brentano a uma ponte entre a Escolástica medieval, a fenomenologia husserliana e certas tradições analíticas tendem a subestimar a dimensão crítica e propositiva de seu projeto psicológico. A Psicologia do Ponto de Vista Empírico é, em primeiro lugar, uma intervenção no debate científico de seu tempo.
Brentano é, simultaneamente:
Leitor crítico de Kant — Responde às restrições epistemológicas à psicologia sem aceitar o pessimismo kantiano quanto à sua cientificidade
Interlocutor dos idealistas — Rejeita a dissolução das dualidades kantianas e a hipostasiação das condições do conhecimento
Crítico da psicofísica — Recusa a redução da vida mental a magnitudes intensivas e ao modelo fisiológico
Fundador de um programa positivo — Propõe uma psicologia descritiva, classificatória e metodologicamente autônoma
VI. Três respostas ao problema: quadro comparativo
Kant (1781–1786) | Fechner (1860) | Brentano (1874) | |
|---|---|---|---|
Problema central | O psíquico só tem dimensão temporal; introspecção é instável e privada | Como quantificar a relação estímulo–sensação? | O que é o fenômeno psíquico enquanto tal? |
Estratégia | Delimitar o problema; a psicologia não pode ser ciência estrita | Psicofísica: correlacionar magnitudes físicas a limiares de sensação | Intencionalidade como marca formal do psíquico; descrição de atos |
Status da psicologia | "História natural do sentido interno" — não é ciência experimental | Disciplina híbrida, apoiada na física e na fisiologia | Ciência empírica autônoma, não psicofísica |
Método | Impossível: sem espaço, sem matemática | Experimental-quantitativo | Descritivo-classificatório |
Legado | Define o "teto" conceitual que os subsequentes precisam superar | Influencia Mach, James, Russell e a psicologia experimental | Funda a fenomenologia; influencia Husserl, Heidegger, Sartre e a Filosofia Analítica |
Considerações finais
Este percurso mostra que a diversidade de abordagens à psicologia no século XIX não é arbitrária: cada resposta ao problema do estatuto científico da psicologia é, ao mesmo tempo, uma tomada de posição em relação a Kant.
O Idealismo Alemão respondeu dissolvendo as dualidades kantianas e propondo uma Natureza orgânica e teleológica. Os primeiros neo-kantianos responderam psicologizando a epistemologia. Fechner respondeu matematizando a relação entre o físico e o psíquico. E Brentano respondeu propondo um critério de demarcação inteiramente novo, fundado na intencionalidade como estrutura formal dos atos psíquicos.
Brentano não é, portanto, apenas o predecessor da fenomenologia ou o interlocutor dos debates ontológicos que viriam depois. Ele é, acima de tudo, um filósofo que encarou de frente os problemas mais difíceis de seu tempo — e que, em sua imensa erudição, estava explicitamente respondendo e contornando as objeções e limitações de outros psicólogos e fisiólogos de seu tempo, extremamente consciente e profundamente preocupado com todas as controvérsias que acometiam — e que, em certa medida, acometem até hoje — a Psicologia e a Filosofia.
Agradeço ao Professor Dr. Mario Ariel González Porta pela orientação atenta, pela exigência intelectual rigorosa e pelo afinco constante com que acompanhou o desenvolvimento deste trabalho, sem os quais esta pesquisa não teria encontrado sua forma atual.
Referências Bibliográficas
ALLISON, Henry E. Kant’s Transcendental Deduction: An Analytical-Historical Commentary. Oxford: Oxford University Press, 2015.
ANTONELLI, Mauro; BOCCACCINI, Federico (org.). Franz Brentano: Critical Assessments of Leading Philosophers. Vol. I – Sources and Legacy. London; New York: Routledge, 2019.
ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Marcelo Perine. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.
ARISTÓTELES. De Anima. São Paulo: Editora 34, 2006.
BEISER, Frederick. After Hegel: German Philosophy 1840–1900. Princeton: Princeton University Press, 2014.
BEISER, Frederick. Hegel. London; New York: Routledge, 2005.
BEISER, Frederick. The Genesis of Neo-Kantianism 1796–1880. Oxford: Oxford University Press, 2017.
BEISER, Frederick. Late German Idealism: Trendelenburg and Lotze. Oxford: Oxford University Press, 2014.
BEISER, Frederick. German Idealism: The Struggle Against Subjectivism 1781–1801. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2008.
BORING, Edwin G. A History of Experimental Psychology. London; New York: D. Appleton-Century Company, 1929.
BRENTANO, Franz. Las Razones del Desaliento en la Filosofía. Trad. Xavier Zubiri. Madrid: Ediciones Encuentro, 2010.
BRENTANO, Franz. El Porvenir de la Filosofía. Trad. Xavier Zubiri. Madrid: Ediciones Encuentro, 2010.
BRENTANO, Franz. Psychology from an Empirical Standpoint. London; New York: Routledge, 2009.
BÜCHNER, Ludwig. Force and Matter: Or Principles of the Natural Order of the Universe, With a System of Morality Based Thereon. London: Forgotten Books, 2015.
CAHAN, David. Helmholtz: A Life in Science. Chicago; London: The University of Chicago Press, 2018.
CASSIRER, Ernst. The Problem of Knowledge: Philosophy, Science, and History Since Hegel. London: Oxford University Press, 1950.
DANZIGER, Kurt. “Mid-Nineteenth Century British Psycho-Physiology: A Neglected Chapter in the History of Psychology”. In: WOODWARD, W.; ASH, M. (org.). The Problematic Science: Psychology in Nineteenth-Century Thought. New York: Praeger, 1982, p. 133–140.
FECHNER, Gustav T. Elements of Psychophysics. Vol. I. Trad. Helmut E. Adler. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1966.
GREGORY, Frederick. Scientific Materialism in Nineteenth Century Germany. Boston: D. Reidel Publishing Company, 1977.
GREGORY, Frederick. “Extending Kant: The Origins and Nature of Jakob Friedrich Fries’s Philosophy of Science”. In: MICHAEL, F.; NORDMANN, A. (org.). The Kantian Legacy in Nineteenth-Century Science. Cambridge, MA: MIT Press, 2006, p. 85–106.
HEGEL, G. W. F. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio. (Referência conforme edição citada na monografia, p. 350–351, 367 – dados completos seguem o padrão utilizado pelo autor).
JAHODA, Gustav. “Johan Friedrich Herbart: Urvater of Social Psychology”. History of the Human Sciences, v. 19, n. 1, 2006, p. 21–37.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. F. C. Mattos. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2016.
KANT, Immanuel. Metaphysical Foundations of Natural Science. Trad. e ed. Michael Friedman. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
KRAUS, Oskar. “Bibliographical Sketch of Brentano”. In: McALISTER, Linda L. (org.). The Philosophy of Brentano. New Jersey: Humanities Press, 1976, p. 3–xx.
LEAHEY, Thomas H. A History of Modern Psychology. 2. ed. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1994.
LENOIR, Timothy. The Strategy of Life: Teleology and Mechanics in Nineteenth-Century German Biology. Chicago; London: The University of Chicago Press, 1989.
MACH, Ernst. Knowledge and Error. Boston: D. Reidel Publishing Company, 1976, p. xxxi–xxxiii.
OTIS, Laura. Müller’s Lab. New York; Oxford: Oxford University Press, 2007.
PASSMORE, John. “The Movement Toward Objectivity”. In: ANTONELLI, Mauro; BOCCACCINI, Federico (org.). Franz Brentano: Critical Assessments of Leading Philosophers. Vol. I – Sources and Legacy. London; New York: Routledge, 2019, p. 35–xx.
PINKARD, Terry. German Philosophy 1760–1860: The Legacy of Idealism. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.
PULTE, Helmut. “Kant, Fries and The Expanding Universe of Science”. In: MICHAEL, F.; NORDMANN, A. (org.). The Kantian Legacy in Nineteenth-Century Science. Cambridge, MA: MIT Press, 2006, p. 101–121.
REED, Edward S. “The Separation of Psychology from Philosophy: Studies in the Sciences of Mind 1815–1879”. In: TEN, C. L. (org.). Routledge History of Philosophy, Vol. VII: The Nineteenth Century. London; New York: Routledge, 2002, p. 297–356.
REHFELD, Daniel. “Brentano e os problemas fundamentais ...” (artigo citado na monografia; os dados completos seguem o padrão indicado pelo autor, em PDF disponível online).
RICHARDS, Robert. The Meaning of Evolution: The Morphological Construction and Ideological Reconstruction of Darwin’s Theory. Chicago; London: The University of Chicago Press, 1992.
SCHNÄDELBACH, Herbert. Philosophy in Germany 1831–1933. Cambridge: Cambridge University Press, 1984.
SMITH, Barry. Austrian Philosophy: The Legacy of Franz Brentano. Chicago: Open Court Publishing Company, 1996.
TURNER, Stephen. “Helmholtz, Sensory Physiology, and the Disciplinary Development of German Psychology”. In: WOODWARD, W.; ASH, M. (org.). The Problematic Science: Psychology in Nineteenth-Century Thought. New York: Praeger, 1982, p. 163–xx.
WILLEY, Thomas. Back to Kant: The Revival of Kantianism in German Social and Historical Thought, 1860–1914. Detroit: Wayne State University Press, 1978.
WOODWARD, William; ASH, Mitchell (org.). The Problematic Science: Psychology in Nineteenth-Century Thought. New York: Praeger, 1982.
WUNDT, Wilhelm. Principles of Physiological Psychology. Nabu Press, 2010.
Kant, Immanuel. Kritik der reinen Vernunft. Riga: Johann Friedrich Hartknoch, 1781 (1. Aufl. A); 2. Aufl. B, 1787.
Kant, Immanuel. Versuch, den Begriff der negativen Größen in die Weltweisheit einzuführen. Königsberg: Johann Jakob Kanter, 1763.
Kant, Immanuel. Metaphysische Anfangsgründe der Naturwissenschaft. Riga: Johann Friedrich Hartknoch, 1786.
Fechner, Gustav Theodor. Elemente der Psychophysik. 2 Bde. Leipzig: Breitkopf und Härtel, 1860.
Weber, Ernst Heinrich. Clássicos experimentos sobre “just noticeable differences” em: Weber, E. H. Der Tastsinn und das Gemeingefühl. Leipzig: Wilhelm Engelmann, 1851 (para lei de Weber utilizada por Fechner).
Wundt, Wilhelm. Grundzüge der physiologischen Psychologie. Leipzig: Wilhelm Engelmann, 1874.
Brentano, Franz. Psychologie vom empirischen Standpunkt. 2 Bde. Leipzig: Duncker & Humblot, 1874.
Lotze, Rudolf Hermann. Medicinische Psychologie oder Physiologie der Seele. Leipzig: Weidmann’sche Buchhandlung, 1852.
Lotze, Rudolf Hermann. Mikrokosmus. Ideen zur Naturgeschichte und Geschichte der Menschheit. 3 Bde. Leipzig: S. Hirzel, 1856–1864.
Trendelenburg, Friedrich Adolf. Logische Untersuchungen. 2 Bde. Leipzig: Leopold Voss, 1840; 2. verm. Aufl. 1862 (para a crítica à dialética hegeliana, “Lücke”).
Hegel, G. W. F. Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse. Heidelberg: J. G. Mohr, 1817; 2. Aufl. 1827; 3. Aufl. 1830.

